terça-feira, 14 de abril de 2015

Abandono (sem eira nem beira) – parte II





Estás atrasado.

Nesta espera que me falta,
Medida em sentimentos,
Calculada em versos ausentes.

Estás atrasado.

Nestes segundos que me ferem,
A cada pulsar do tempo,
Em relógio parado.

Estás atrasado.

Um olhar não olha para trás.
Saudade não tem companhia.
Saudade vive só.


Estás atrasado.

sábado, 11 de abril de 2015

Abandono (nos versos) – parte I


Abandono-te nas letras,
Que não mais respiram,
Por querer-te longe,
Afastado d’um olhar cansado.


Abandono-te no sorriso morto,
Morno,
Nos gestos despencados,
D’alma em voz perdida.


Abandono-te em mente distraída,
Em percepções sem viço,
Pálidas e desconexas,
Apagadas e frouxas.


Abandono-te sem medo,
(na procura da cura).
Sem prosa, sem verso,
Sem deixar o meu aceno.


Abandono-te porque o fim,
Exige um recomeço.
Sem tropeço.


Abandono-te.

(ponto final).

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Oração (num só verbo).

Por ti,
Vergo os joelhos no altar dos meus olhos,
Crucifico a minh’alma,
Em cada pecado teu.

Por ti,
Penitencio os meus dias,
A pão e água,
No jejum da falta que o teu sorriso me traz.

Por ti,
Dilacero o peito,
Num fardo de dor.
E reverencio a cruz que carrego por este amor.

Por ti,
Enclausuro em fé todas as promessas não cumpridas,
Toda santificada oração,
Que alivia o meu fardo.
Numa só rogativa.

Por ti,
Diante de toda dúvida,
E da completa resignação, me coloco em prece.

Como quem espera por um milagre.
Como quem suplica pela eternidade, em baixa voz.
À caminho da minha paz.

À caminho da tua redenção.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Sonhar-te.


Tenho-te preso amor meu,
Nas lágrimas do meu sorriso versado,
E chamo-te pelo nome,
Incontrolável,
No encontro de nossas bocas em chama.

Em teu peito descanso a minh’alma,
Quando o teu corpo,
Junto ao meu,
Une-se num querer incendiado.

De todas as palavras,
Que não ouso confessar-te,
Loucamente entregue,
Faço dos teus desejos,
Um queimar profundo da tua obscenidade.

Longas são as noites,
Em que não te tenho insano,
Tornando a lua testemunha única,
Deste movimento que me arrasta,
Que te arranha e que te marca.
Sonhar-te tornou-se a minha adoração,
Que sussurro em calada voz,
Transformando o meu poema,
Em perfeita oração.

Traga-me os teus dias vazios,
Entrega-me as tuas noites solitárias,
Verte a tua alegria num único gesto,
E repousa tuas mãos cansadas,

Ao encontro das minhas.

Nada te digo.


Seca-me a boca na ausência de um poema teu,
E na fonte que verte há sempre um delírio calado,
E das horas de sono em que me perco,
Aprisiono-me serena num pensamento solitário.

Ouço a noite silenciosa e nada te digo,
Abraço em teus olhos um raiar de lua,
E trago pela pele insinuada sabores de ti,
Partindo em sonhos a lembrança distante.

Aconchego-me na maciez do linho frio,
Na calma afogo-me em tua chama acesa,
E prenuncio a quentura do teu colo onde me calo,
Rasgando em pedaços o amar interrompido.

Ouço a noite silenciosa e ainda nada te digo,
Guardo a candura de tuas palavras silenciosas,
E de alma morna e serena num poema inventado,
Apoio o teu peito cansado e adormeço.

Seca-me a boca...
Aconchego-me...
Guardo-te...

E nada te digo...

Confissão.


Não espero da saudade, o afugentar dos teus olhos,
Nem das promessas o calar d’alma em tua boca santa,
Ouço o tempo em comunhão bendita na minha santidade,
E derramo a água benta para que te sacies.

Não espero da tempestade, o desaguar das tuas malícias,
Nem das insanidades o revelar de um corpo em extasia,
Paro as horas em cumplicidade viciosa em minha vontade,
E verto o calor secreto para que te alucines.

Não quero do chamar febril, o mergulhar dos teus lábios,
Nem das carícias o revelar único da tua lascívia,
Agarro o galopar do teu movimento em minha euforia,
E beijo o teu corpo ardente para que te rendas.

Não grito o teu nome, sussurro-te...
Não te falo meiguices, exijo-te...
Não te proponho loucuras, vivo-te...

Nada te prometo apenas quero-te assim,
Liberto,
Talvez incerto,
Quem sabe nu...
Ou quem sabe em mim, inteiro e todo descoberto...!

Poesia em ti.


Traga-me ao peito um poema único,
Porque te faço canção, embebida de mel e esquecimento,
Olhando-te em meus olhos acesos de lume,
Como flor em viço, perdendo-me os pensamentos...

Traga-me à alma um sorriso, onde me perco,
Porque te chamo nas palavras sentidas,
Vertendo-te ao coração a presença de infinitos dias,
Como num aceno, em sensações bandidas...

Traga-me aos dias um rio morno e brando,
Porque te invado num sonho sem pressa,
Aconchegando-te em versos soltos, entontecidos,
Como vento frio, cortante, em terras por onde ando...

Traga-me aos olhos o teu verbo extasiado,
Porque te invento numa brincadeira infantil,
Deixando-te entre os dedos os meus cabelos soltos,
Deixando-te entre os toques todo um corpo enjaulado...
  
Traga-me a tua poesia,
As tuas palavras e o teu encantamento,
E deixa-me morrer, assim...
Morrer em teu sorriso,

E porque, não morrer feliz em tua doce fantasia...