sábado, 11 de abril de 2015

Abandono (nos versos) – parte I


Abandono-te nas letras,
Que não mais respiram,
Por querer-te longe,
Afastado d’um olhar cansado.


Abandono-te no sorriso morto,
Morno,
Nos gestos despencados,
D’alma em voz perdida.


Abandono-te em mente distraída,
Em percepções sem viço,
Pálidas e desconexas,
Apagadas e frouxas.


Abandono-te sem medo,
(na procura da cura).
Sem prosa, sem verso,
Sem deixar o meu aceno.


Abandono-te porque o fim,
Exige um recomeço.
Sem tropeço.


Abandono-te.

(ponto final).

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Oração (num só verbo).

Por ti,
Vergo os joelhos no altar dos meus olhos,
Crucifico a minh’alma,
Em cada pecado teu.

Por ti,
Penitencio os meus dias,
A pão e água,
No jejum da falta que o teu sorriso me traz.

Por ti,
Dilacero o peito,
Num fardo de dor.
E reverencio a cruz que carrego por este amor.

Por ti,
Enclausuro em fé todas as promessas não cumpridas,
Toda santificada oração,
Que alivia o meu fardo.
Numa só rogativa.

Por ti,
Diante de toda dúvida,
E da completa resignação, me coloco em prece.

Como quem espera por um milagre.
Como quem suplica pela eternidade, em baixa voz.
À caminho da minha paz.

À caminho da tua redenção.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Sonhar-te.


Tenho-te preso amor meu,
Nas lágrimas do meu sorriso versado,
E chamo-te pelo nome,
Incontrolável,
No encontro de nossas bocas em chama.

Em teu peito descanso a minh’alma,
Quando o teu corpo,
Junto ao meu,
Une-se num querer incendiado.

De todas as palavras,
Que não ouso confessar-te,
Loucamente entregue,
Faço dos teus desejos,
Um queimar profundo da tua obscenidade.

Longas são as noites,
Em que não te tenho insano,
Tornando a lua testemunha única,
Deste movimento que me arrasta,
Que te arranha e que te marca.
Sonhar-te tornou-se a minha adoração,
Que sussurro em calada voz,
Transformando o meu poema,
Em perfeita oração.

Traga-me os teus dias vazios,
Entrega-me as tuas noites solitárias,
Verte a tua alegria num único gesto,
E repousa tuas mãos cansadas,

Ao encontro das minhas.

Nada te digo.


Seca-me a boca na ausência de um poema teu,
E na fonte que verte há sempre um delírio calado,
E das horas de sono em que me perco,
Aprisiono-me serena num pensamento solitário.

Ouço a noite silenciosa e nada te digo,
Abraço em teus olhos um raiar de lua,
E trago pela pele insinuada sabores de ti,
Partindo em sonhos a lembrança distante.

Aconchego-me na maciez do linho frio,
Na calma afogo-me em tua chama acesa,
E prenuncio a quentura do teu colo onde me calo,
Rasgando em pedaços o amar interrompido.

Ouço a noite silenciosa e ainda nada te digo,
Guardo a candura de tuas palavras silenciosas,
E de alma morna e serena num poema inventado,
Apoio o teu peito cansado e adormeço.

Seca-me a boca...
Aconchego-me...
Guardo-te...

E nada te digo...

Confissão.


Não espero da saudade, o afugentar dos teus olhos,
Nem das promessas o calar d’alma em tua boca santa,
Ouço o tempo em comunhão bendita na minha santidade,
E derramo a água benta para que te sacies.

Não espero da tempestade, o desaguar das tuas malícias,
Nem das insanidades o revelar de um corpo em extasia,
Paro as horas em cumplicidade viciosa em minha vontade,
E verto o calor secreto para que te alucines.

Não quero do chamar febril, o mergulhar dos teus lábios,
Nem das carícias o revelar único da tua lascívia,
Agarro o galopar do teu movimento em minha euforia,
E beijo o teu corpo ardente para que te rendas.

Não grito o teu nome, sussurro-te...
Não te falo meiguices, exijo-te...
Não te proponho loucuras, vivo-te...

Nada te prometo apenas quero-te assim,
Liberto,
Talvez incerto,
Quem sabe nu...
Ou quem sabe em mim, inteiro e todo descoberto...!

Poesia em ti.


Traga-me ao peito um poema único,
Porque te faço canção, embebida de mel e esquecimento,
Olhando-te em meus olhos acesos de lume,
Como flor em viço, perdendo-me os pensamentos...

Traga-me à alma um sorriso, onde me perco,
Porque te chamo nas palavras sentidas,
Vertendo-te ao coração a presença de infinitos dias,
Como num aceno, em sensações bandidas...

Traga-me aos dias um rio morno e brando,
Porque te invado num sonho sem pressa,
Aconchegando-te em versos soltos, entontecidos,
Como vento frio, cortante, em terras por onde ando...

Traga-me aos olhos o teu verbo extasiado,
Porque te invento numa brincadeira infantil,
Deixando-te entre os dedos os meus cabelos soltos,
Deixando-te entre os toques todo um corpo enjaulado...
  
Traga-me a tua poesia,
As tuas palavras e o teu encantamento,
E deixa-me morrer, assim...
Morrer em teu sorriso,

E porque, não morrer feliz em tua doce fantasia...

quarta-feira, 18 de março de 2015

À tua ausência.






Doei-te num olhar enorme,
Uma lágrima interrompida,
E da minha boca,
Naufragou o desejo de ti, em água morna.


Ao calar das horas,
E sem reservas,
Mergulhei na imensidão do teu sorriso.


Fechei a porta, nem sei de que forma,
Transpirando na pele o teu sabor. 


E na candura da tua face,
Anoitecida de desejos,
Tomei o silêncio em teu peito...


E sem pressa pelo despertar preguiçoso,
Aconcheguei-me em tua ausência,
E pousei em teu colo,
A maciez da tua e da minha intimidade.


Feito um poema, 
Inteiro e jamais imaginado.