quarta-feira, 22 de abril de 2015

*Entardecer (numa só verdade)*



Cai a tarde morna,
Afogada em sorriso leve,
E no vidro baço da memória,
Entardece o teu olhar.

Abraço estrelas,
Apagadas na aridez de palavras mudas,
Sem gestos,
Que se despedem do viço de outrora.

O lume do olhar,
Acena à saudade, de longe,
Rasgando espaços do firmamento,
E a ti não encontro mais,
Nestas pétalas murchas,
Que o outono empurra, teimoso,
Tão frio e sem guarida.

Nunca te soube, quiçá em imaginação,
E nas letras, que pelas lágrimas escorrem,
O peito teima.

Teima em ardente chama que o vento apaga,
E o perfume de jasmim,
Que colore os dias agora desbotados,
Esvoaça por entre os dedos.

Amanhecerás em poesia,
Decantada
E encantada, numa saudade?

Esvazio-te de minhas mãos,
Deixo-te um sonho embriagado,
E por querer-te demais, nesta impossibilidade,
Beijo o silêncio,
Que a brisa leva, ao encontro da tua despedida

*Nunca (por ser eterno)*




Nunca te imaginei feito um verbo,
Parido em meu ventre de amor,
Ao dar a luz aos meus olhos,
Perdidos na dor.

Nunca te senti na intimidade,
Em alma materna,
Que doa a vida,
Em misericórdia,
Alegria tão sentida.

Nunca te senti ao léu,
Feito órfão abandonado,
A procura da esquecida identidade,
No reencontro da felicidade.

Nunca (por ser eterno),
Amei-te tanto,
Feito embalo de canção de ninar.
A soar,
No sorriso infantil do teu sono.

Quando finda todo o meu pranto.

**Inebriante** (a nós)



Das mãos,
Trago-te alento,
Em dias sofridos,
Em que tudo no peito dói.
Mas não destrói.

Dos gestos,
Mostro-te (se quiseres) um caminho de luz,
Por estradas desconhecidas,
A mim e a ti,
A serem percorridas.

Da voz (esta que conheces),
Sonorizo-te o embalo de uma canção,
Composta numa só partitura,
Regida por duas vidas,
Infindas.

Mas do carinho,
Resta-te (a nós),
Este perfume inebriante,
Marcante,
E demasiadamente intenso.

E basta.

É tudo o que fica.
E tudo o que testifica.
Quando entre nós,
Não perdura, nunca,
Uma despedida.

**Entrelaçado**


Da tua voz,
Falta-me um som.
Imperceptível,
Aos meus sentidos, audível.

Da tua pele,
Falta-me o cheiro.
Instigante.
Ao meu olfato, inebriante.

Dos teus olhos,
Falta-me a malícia.
Fatal.
Ao brilho dos meus, imortal.

Do teu corpo,
Falta-me quase um nada.
Tenho-o presente.
Irreverente.
Intenso e quente.

E num único querer,
Fica assim,
Eternamente,
Entrelaçado ao meu.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

*Anjo (feito homem)*



Não me livres deste mal,
Que contorce a minh’alma,
Por ter-te aqui (ao lado meu),
Guerreiro, em proteção.

Unge meu peito,
Em luz celestial, que esparge deste amor,
Não irreal.

Santifique a minha (e nossa),
Vida.
Bendita.
Nunca interrompida.

Anjo (feito homem),
Descido do céu (em carne viva),
Une a tua fronte,
À minha fonte.

Estejas aqui (pelo tempo certo),
Em eternidade.
Total cumplicidade.

Em tuas asas (vivas em mim),
Desfaça os erros.
Apague os medos.

Tua vinda (inesperada),
Transformou a minha vida,
Em uma única Vida.
E quebrantou a minha saudade.


Feito Anjo.
Feito Homem.

*Leveza (quando em ti)*




Ao toque do linho frio,
Em testemunha daquilo que se reparte,
Entre tantos sons (só nossos),
Faz-se o despertar.

Na intimidade do verbo entoado,
Em segredo que se esconde no sentir,
Acendem-se aos olhos (os nossos),
Tanto a se dizer.

Na sutilidade dos gestos,
Que mesmo em fúria,
Une a tua vontade à minha,
Fico assim: calada.

Mas é na leveza da tua alma,
(Quando em ti),
Que me encontro.
Que me extasio.

Sorrio e não me perco pelo caminho.

Cálice (bendito seja).



Toma-me em cálice sagrado,
Em tua boca infame, no pecado que seja santo,
Na demora dos teus dias em penitência,
Como fonte divina da redenção.

Blasfeme a tua ira,
Em arrependimento,
No perdão que não te é lícito,
Nem pela água benta que te fecha os lábios.

Vergue os joelhos,
Pela derrota que não ousas confessar,
Na tirania insolente em que me julgas,
Porque o inferno, as portas não te abrem.

Clames pelo juízo (o final),
E pela cruz santa que te absolve,
Que redime os pecadores insanos,
Que lava o teu corpo (um dia meu),
Curando as chagas.

Vinho santo (o meu),
Que purga os teus dias,
E cujo perdão,
Encontrarás somente,
No dia da tua libertação.